5/24/2009

Rokia Traoré / The Renaissance Players Winsome Evans

“De Israel provém uma fusão perfeita entre as músicas de origem muçulmana e judaica e da Argélia uma improvisação no oud, o alaúde árabe. São os sons que abrem hoje as portas do Templo das Heresias”.
(1) Yair Dalal (4) Al Ol (7:39) “Al Ol”
(2) Alla (5) Espérance (9:57) “Tanakoul”

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Rokia Traoré é uma jovem do Mali que representa uma nova geração de artistas africanos que permanecem fiéis às suas raízes e que, simultaneamente, mantêm um olhar sobre as tendências do mundo moderno. Esta espécie de cantautora africana conhece bem os griots, mas também o jazz, a música clássica, o rock, os blues e a música indiana. De forma segura, Rokia Traoré tem seguido as tradicionais características das músicas do oeste africano, mas enveredado também por caminhos inovadores. Por vezes, arrisca combinações instrumentais únicas, quando, por exemplo, utiliza o balafon balaba (característico de Bélédougou, a sua região, no sul do Mali) e o n’goni (espécie de guitarra maliana, o instrumento favorito dos griots Bambara). Por outro lado, Rokia rejeita definitivamente a kora, o instrumento de cordas emblemático do oeste africano, substituindo-a por uma guitarra acústica.
Depois de aqui termos destacado Mouneïssa (1998), Wanita (2000) e Bowmboï (2003), a talentosa compositora maliana regressou com Tchamanché (2008), um registo onde, uma vez mais, inclui autênticas pérolas de depuração acústica, em que a delicadeza e simplicidade não se confundem com fragilidade. A guitarra eléctrica Gretsch, a harpa, o N’Goni, a voz sussurrante de Rokia, as letras na língua Bambara e os instrumentos clássicos, tudo em perfeita harmonia, criam uma atmosfera envolvente e hipnótica, fazendo de Tchamanché um dos discos do ano.


(05) Kounandi (6:20)
(01) Dounia (5:23)
(02) Dianfa (4:33)

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“De Espanha provém um poema de Garcia Lorca, do Indostão uma composição do século XVI e da comunidade indiana de Inglaterra um tema de Ghazal, a forma suprema da expressão do amor. São os sons que encerram a 1ª parte do Templo das Heresias.”
(1) Camarón de la Isla (1) Nana del caballo grande (4:58) “Autorretrato”
(2) Ali Akbar Khan (4) Tarana (8:21) “Legacy”
(3) Najma Akhtar (4) Apne Hathon (5:36) “Qareeb”


2ª Hora

“Extraordinárias fusões entre a música antiga europeia e a tradicional indiana: Um canto gregoriano acompanhado pela sitar, um tema da Itália do século XIII cruzado com um canto devocional da Índia do Sul e um raga ocidentalizado.”
(1) Ustad Nishat Khan & Ensemble Gilles Binchois (7) Alleluia – Excita Domine, potentiam tuam (3:37) “Meeting of Angels”
(2) Aruna Sairam & Dominique Vellard (4) Ave vergene & Raga Caliani (11:31) “Sources: Devotional Chants of Southern India & Medieval Europe”
(3) Alain Zaepffel, Véronique Dietschy, Sulochana Brahaspati, Zakir Hussain et l’ensemble Gradiva (5) 3ème leçon du mercredi Saint (8:19-11:53) “Leçons de ténebres & Raga de la nuit avancée”

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Fundado em 1967 pelo professor Winsome Evans, da Universidade de Sidney, o ensemble The Renaissance Players Winsome Evans é o mais conceituado agrupamento australiano dedicado à música antiga. Tornou-se conhecido principalmente pelos seus variados e imaginativos concertos, que comportam poesia, música, dança e procissões. Como o próprio nome indica, The Renaissance Players foram constituídos para demonstrar a função particular do ensemble em dar uma nova vida e fazer reviver a música do passado, baseando o seu trabalho numa recolha exaustiva e posterior estudo e prática, no sentido de reproduzirem os estilos e géneros musicais há muito perdidos no tempo.
Em 1999, The Renaissance Players lançaram a caixa com 4 CDs “The Sephardic Experience” (Celestial Harmonies) - dedicada ao espólio das comunidades sefarditas da Europa, Império Otomano e Norte de África, (previamente editado nos registos “Thorns of Fire”, “Apples & Honey”, “Gazelle & Flea” e “Eggplants”) - que atempadamente foi destacada em “O Templo das Heresias”.
Em 2001, The Renaissance Players lançaram a antologia “Of Numbers And Miracles: Selected Cantigas de Santa Maria” (Celestial Harmonies), que compilava temas dos registos “Songs For A Wise King” (Cantigas I) “Maria Morning Star” (Cantigas II) e “Mirror Of Light” (Cantigas III).
Como temos relembrado, por variadíssimas ocasiões, a colecção de “Cantigas de Santa Maria” abarca 426 obras dedicadas à Virgem, compostas na segunda metade do século XIII, por volta de 1250-80, sob a direcção do então rei de Castela, Afonso X, o sábio (1221-1284). Pela sua coerência temática e formal, pela sua homogeneidade estilística, pelo seu número e até pela beleza dos próprios manuscritos que as contêm (alguns deles com luxuosas miniaturas), esta colecção tornou-se num fenómeno particular na história da música medieval e constitui o cancioneiro com mais variedade de temas acerca da Virgem Maria em toda a Europa.

“Of Numbers And Miracles: Selected Cantigas de Santa Maria” (Celestial Harmonies):

(13) Cantiga 100: Santa Maria strela do dia (5:03)
(02) Cantiga 10: Rosa das rosas (6:34)
(05) Cantiga 2: Muito devemos varões (4:02)
(14) Cantiga 340: Virgen madre groriosa (3:35)

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“Cânticos religiosos do Líbano, Bulgária e Austrália/Inglaterra encerram o Templo das Heresias de hoje”.
(1) Soeur Marie Keyrouz & L’Ensemble de la Paix - (2) Ilahi hanayta-s-sama (8:11) “Cantiques de l’Orient”
(2) Vox (10) Alleluja (7:46) “X Chants from Christian Arab Tradition”
(3) Sinfonye (10) O Bonifaci (3:04) “O nobilissima viriditas (The Complete Hildegard Von Bingen, volume three)”

4/06/2009

Bako Dagnon / Capella de Ministrers

“Um diálogo intenso entre a tradição do Senegal e a modernidade, um manifesto do Burkina Faso sobre a tolerância, uma canção da Gâmbia acerca da saudade da família e uma homenagem da Guiné à desaparecida rainha das Amazonas. São os sons que abrem hoje as portas do Templo das Heresias”.

(1) Seckou Keita Quartet (CD 2 - 10) Tounga (5:42) “Desert Blues 3: Entre Dunes et Savanes”
(2) Victor Démé (2) Djôn’maya (4:04) “Victor Démé”
(3) Justin Adams & Juldeh Camara (11) Me Wairi Bainguray Am (2:20) “Soul Science”
(4) Les Amazones de Guinée (3) Reine Nyépou (6:20) ”Wamato”

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Bako Dagnon, "uma das grandes figuras da música tradicional do Mali", segundo o jornal “L'Essor Bamako”, faz parte de uma geração de proeminentes griots do oeste africano. Nascida em N'Golobladji, perto de Kita, em 1948, Bako começou a cantar desde criança, para acompanhar a mãe em cerimónias, nomeadamente em baptizados e casamentos. Sendo uma griot, Bako Dagnon foi educada no sentido de estudar a genealogia e a história do Mali, recuando ao império Mandinga do século XIII, a fim de perpetuar o grande passado do seu país.
Após ter participado em espectáculos a nível local, em Kita, Bako Dagnon foi seleccionada para a Bienal de Bamako em 1972, para representar a sua região. Em 1974, foi convidada para se juntar ao Ensemble Instrumental do Mali, onde permaneceu 10 anos. Com este grupo, juntamente com grandes cantoras como Mokontafe Sacko, Sarafing Kouyaté, Wandé Kouyaté e Nantenedié Kamissoko, Bako Dagnon ajudou a desenvolver e a promover a música tradicional do Mali, pelo que o reitor (dean) da música do país, o falecido Bazoumana Sissoko, a convidou por diversas vezes para cantar em sua casa.
Bako Dagnon produziu no Mali, ao longo dos anos, cinco cassetes. Ainda assim, a sua importância para a música do seu país vai além disso. O seu conhecimento enciclopédico das línguas, das tradições e da história do Mali era sobejamente conhecido e até o célebre Ali Farka Touré a consultou e recorreu aos seus ensinamentos, por diversas ocasiões. Bako foi convidada para participar no registo “Electro Bamako”, de Mamani Keita & Marc Minelli e quando o produtor senegalês Ibrahima Sylla da Syllart Productions lhe pediu para participar na gravação do segundo volume do projecto “Mandekalou”, abriu-se-lhe o caminho para gravar um álbum no seu próprio país.
Bako Dagnon publicou o seu primeiro registo, Titati, em Novembro de 2007, gravado principalmente no Estúdio Bogolan, em Bamako, e, parcialmente, em Paris. Com arranjos do director artístico François Bréant, que se tornou conhecido por ter trabalhado com Salif Keita, Sekouba Bambino, Idrissa Soumaoro e Thione Seck, "Titati” oferece uma muito interessante mistura de canções antigas com arranjos modernos. Descreve as realidades da vida maliana (“Toubaka”); celebra a beleza da mulher (“Sansando Minata”); conta como um caçador impressiona a esposa do rei (“Donsoke”); defende a importância da verdade (“Telemba”); elogia um ferreiro (“Noumou”); ou faz uma homenagem a Bakary Soumano, um dos mais importantes griots (“Bounteni”)… O variadíssimo repertório e a voz sublime de Bako Dagnon fazem de "Titati” um clássico instantâneo.

(06) Bounteni (4:57)
(10) Ikérifayé (7:28)
(05) Noumou (3:59)
(07) Titati (5:52)

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“Um tema do Ghana sobre a saudade de outros tempos, uma canção tradicional do Togo de apelo à união, uma melodia do Quénia que celebra a chegada da chuva e um lamento do Uganda sobre a dor de quem é forçado a abandonar a sua pátria. São os sons que encerram a 1ª parte do Templo das Heresias.”

(1) Aaron Bebe Sukura & the Local Dimension Palm Wine Band (3) Asaakummene Tengdar (3:39) “Acoustic Ghanaian Highlife”
(2) Ali Bawa (6) Ki Man Wo (3:40) “Togo: Music from West Africa”
(3) Ayub Ogada (9) Kothbiro (5:36) “En Mana Kuoyo”
(4) Geoffrey Oryema (6) Makambo (5:00) “Exile”


2ª Hora

“Um canto sefardita de Esmirna, um romance de origem árabe do século XV e uma ballata de um anónimo italiano do século XIV.”

(1) Constantinople (8) El rey de Francia (4,29) “Memoria Sefardí: Musique d’ Espagne juive et chrétienne”
(2) Begoña Olavide (1) Paseabase el rey moro (5,27) “Mudejar”
(3) Ensemble Syntagma (1) Che Ti Zova Nasconder (5,10) “Stylems: Italian Music From The Trecento”

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Sob a direcção de Carles Magraner, o ensemble Capella de Ministrers foi fundado em 1987, com o objectivo de recuperar o património musical espanhol, sobretudo o valenciano. Especializou-se na interpretação do repertório musical anterior ao século XIX e, em pouco tempo, consolidou-se como um dos grupos de referência nos domínios da música antiga vocal e instrumental.
Uma intensa actividade dedicada a espectáculos ao vivo, aliada a tarefas de recuperação e de investigação musicológica, impulsionadas por Carles Magraner e patrocinadas pela Universidade de Valência, deixam perceber o duplo compromisso adquirido pela Capella de Ministrers: resgatar a música antiga como parte essencial e fundamental da memória colectiva e aproximá-la do nosso tempo, à luz do século XXI, em que a arte e a cultura se nos apresentam como autênticos pilares do pensamento contemporâneo.
Entre as obras que a Capella de Ministrers tem recuperado, poderão citar-se a adaptação para palco da zarzuela do século XVIII “La Madrileña” de Vicente Martín y Soler (nunca antes publicada), o primeiro “Oratorio Sacro” espanhol, a mais antiga versão de “El Misteri d'Elx” e a ópera “Dido e Aeneas” de Henry Purcell.
A Capella de Ministrers, por outro lado, tem colaborado com realizadores como Alex Rigola, Juli Leal, Vicent Genovés, Jaume Martorell; fez programas para a TVE (Televisão Nacional de Espanha), a Radio 2 e a RNE (Rádio Nacional Espanha), bem como para várias estações de rádio e televisão europeias e sul-americanas; publicou cerca de 20 gravações através da EGT, Blau, Auvidis e CDM (esta última a gravadora do grupo desde 2002), algumas delas alvo de várias distinções, entre as quais se destacam o prémio de Melhor Produção pelo Ministério da Cultura e um conceituado prémio da Editorial Prensa Valenciana.
A música da Capella de Ministrers para “Cant de la Sibil.la” fez parte da banda sonora do filme “Son de Mar” de Bigas Luna e iniciou uma série de colaborações entre o grupo e o director catalão. Em 2002, o Workshop de Bigas Luna criou o segmento audiovisual da peça “Lamento di Tristano” e em 2003, Luna, mais uma vez, contou com a participação da Capella, desta vez na adaptação de “Comédias Bárbaras” de Valle-Inclán, que encerrou a Bienal de Valência.
Arrojado e ambicioso foi o projecto da Capella de Ministrers, em 2008 intitulado “Música en Temps de Jaume I”, para comemorar o aniversário do nascimento de Jaume I (1208-1276), rei conquistador, homem de estado e político hábil e realista, fundador do reino dos valencianos no século XIII. Trata-se de um livro luxuoso com 200 páginas e que inclui as três novidades discográficas da Capella: “Ad honorem Virginis” (Polifonia sacra a la Corona d’ Aragó i el Cant de la Sibil.la (s. XII-XV), “Amors e Cansó” (Trobadors de la Corona d’ Aragó (s. XII-XIII) e “Al-hadiqat Al-dai´a” (Música i poesia andalusí a la Valènciadels s. XII-XIII). Um documento imprescindível em qualquer discografia que se preze.

(01) Ab hac familia (1:41) “Ad honorem Virginis”
(07) Nativitas Marie virginis (5:03) “Ad honorem Virginis”
(04) Ab la fresca clardat (6:34) “Amors e Cansó”
(13) Amors, mercê no sia (4:02) “Amors e Cansó”
(03) Oh València, tu no ets tu (3:35) “Al-hadiqat Al-dai´a”
(05) La Russafa de València (2:57) “Al-hadiqat Al-dai´a”

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“Um poema de amor do Minnesänger Konrad von Würzburg do século XIII, uma cantiga dedicada a Santa Maria do rei Afonso X de Castela, uma prosa do século XIV do Códex Huelgas de Burgos, um texto do Codex Manesse de Heidelberg do século XIII e outra cantiga de Santa Maria. São os sons que encerram o Templo das Heresias”.

(1) Ensemble Lucidarium - (12) Winter vf der heide blvomen selwet (2,12) “En chantan m’ aven a membrar” (Troubadours, Trouvères et Minnesänger du Rhône au Rhin)
(2) Camerata Mediterranea (13) Cantiga 200 Santa Maria Loei (5,34) “Cantigas de Santa Maria”
(3) Voces Huelgas (6) Cetus Apostolici (2:42) “Inedit Poliphony”
(4) Freiburger Spielleyt (10) Willekomen si der sumer schoene (3:17) “O Fortuna”
(5) Ensemble Unicorn (6) Que por al non devess (2:20) “Alfonso X el Sabio”

2/08/2009

Mari Boine / Ensemble Cantilena Antiqua

1ª Hora

“Um tema da Argélia sobre a tristeza, uma melodia do México sobre a atracção pelas viagens, uma canção que reinventa o tango argentino e um canto da máfia italiana sobre a importância da honra. São os sons que abrem hoje as portas do Templo das Heresias”.

(1) Souad Massi (10) Malou (6:08) “honeysuckle (mesk elil)”
(2) Lhasa de Sela (6) La frontera (3:02) “The Living Road”
(3) Silvana Deluigi (1) La Cumparsitta (3:36) “Yo!”
(4) Autor desconhecido (13) Tira la pinna (4:27) ”Omertà, Onuri e Sangu”

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O território Saami é a maior região rural contínua da Europa, estendendo-se pela costa noroeste da Noruega, pelo Norte da Suécia e da Finlândia e ainda pela península de Kola, no Noroeste da Rússia. Os Saami, estimados em cerca de 50 mil, são, muitas vezes, conhecidos no Ocidente por Lapões e o seu território por Lapónia. No entanto, preferem que os tratem por Saami, palavra que significa simplesmente “Homem”, enquanto Lapão se pode traduzir por “povo que foi levado para o fim do mundo”.
A canção tradicional dos Saami, a joik, é anterior à sua evangelização e foi caracterizada por alguns investigadores como uma das mais antigas tradições musicais da Europa. Normalmente interpretadas à capela, ou seja, sem acompanhamento musical, com palavras ou só com sons vocais, que procuravam transmitir a essência de uma pessoa, de uma vida, de uma realidade, de um fenómeno, as joik foram rejeitadas pelos primeiros missionários cristãos que as consideravam “canções do diabo”.
Um joik pessoal é um símbolo acústico individual Saami, que é partilhado apenas num muito restrito círculo de pessoas. Aprende-se a joik quando se é criança. Os pais podem oferecer uma joik ao seu filho e, mais tarde, quando a criança se torna adulta, essa joik pode alterar-se. Também se pode dar uma joik à pessoa amada e, nesse caso, trata-se de um compromisso, de algo que está sempre presente. É uma oferta, uma prenda que durará para toda a vida.
A principal embaixadora cultural dos saami, a norueguesa Mari Boine, tem-se dedicado a recuperar as entoações xamânicas do canto joik, cruzando-o com ritmos de todo o mundo. Com efeito, Mari Boine, saami mas também cidadã do mundo, junta a música tradicional do seu povo com a riqueza rítmica e harmónica de outras culturas ancestrais. Um encontro que passa pelo cruzamento dos sons étnicos de África ou da América do Sul com influências mais actuais como o jazz, o rock, a pop ou mesmo a música electrónica. Enceta, a cada álbum, autênticas peregrinações sonoras, utilizando instrumentos como o violino árabe, a charanga peruana, as flautas andinas ou as percussões africanas.
Com mais de vinte anos de carreira e treze álbuns editados, Mari Boine tem vindo a ser destacada, ao longo dos anos, no Templo das Heresias, nomeadamente aquando da edição dos registos “Gula Gula” (1989), “Goaskinviellja/Eagle Brother” (1993), “Leahkastin/Unfolding” (1994), Bálvvoslatnja/Room of Worship” (1998), “Odda Hámis” (Remixed) (2001) e “Gávcci Jahkejuogu/Eigth Seasons” (2002). Voltamos agora, para vos dar a conhecer “Idjagieđas/In the Hand of the Night” (2006) e “Bodes Bat Gal Buot Biros/It Ain’t Necessarily Evil” (Remixed Vol II) (2008), os seus dois últimos álbuns, verdadeiros manifestos que acrescentam novas sonoridades à joik tradicional.


(3) Suoivva/The Shadow (6:03) “Idjagieđas/In the Hand of the Night”
(1) Vuoi Vuoi Mu/ Vuoi Vuoi Me (4:49) “Idjagieđas/In the Hand of the Night”
(2) Gos bat munno cinat leat/syntax Erik (6:07) “It Ain’t Necessarily Evil”
(4) Boadan nuppi bealde/120 Days (5:27) “It Ain’t Necessarily Evil”

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“Um tema tradicional do Uzbequistão em homenagem aos pais, um fragmento de uma história arménio-curda sobre o rapto de uma jovem e uma demonstração das potencialidades do Kanoun (instrumento que descende da harpa faraónica). São os sons que encerram a 1ª parte do Templo das Heresias.”

(1) Matlubeh (9) Ateh-Anah (4:50) “Yar Kelour”
(2) Kotchnak (8) Gulizari voghpe (4:53) “Chants Populaires Arméniens”
(3) Soliman Gamil (7) Sufi Dialogue (5:26) “The Egyptian Music”


2ª Hora

“Um canto anónimo da Sicília do Séc. XV, um hino a Santiago retirado do Codex Calixtinus do Séc. XII e um tema anónimo dos Cruzados, do Séc. XIII.”

(1) Al Qantarah (8) Dolce lo mio drudo (6,40) “Abballati, abballati! Canti e suoni della Sicília Medievale”
(2) Ensemble Weltgesang (1) Dum Paterfamilias (7,36) “Primus ex Apostolis: Saint Jacob in the Medieval Pilgrimage Songs”
(3) The Toronto Consort (5) Quen quer que na Virgen fia (5,59) “The Way of the Pilgrim: Medieval Songs of Travel”

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Se nos debruçarmos sobre os últimos séculos da Idade Média, concretamente entre XII e XIV, constatamos que a fermentação social e cultural desta época não se pode pôr em paralelo com o imobilismo até então reinante. É certo que, a partir do séc. X, findas as últimas invasões, a Europa se começa lentamente a transformar; mas só então a nova mentalidade, a princípio confinada à orla mediterrânea, passa a ocupar o primeiro plano.
É a vez da língua vulgar ascender à dignidade da escrita, tradicionalmente restrita ao latim; é a vez do indivíduo se descobrir como autor, reivindicando uma voz original. Saímos do reino dos anónimos, dos que apenas julgam transmitir uma herança e entramos no reino dos criadores, dos que deixam assinatura.
Nascendo no seio de uma cultura oral, a expressão da nova atitude é, naturalmente poética: a poesia, com as suas rimas, a sua métrica, e o seu repertório de expressões, facilita a memorização. Por outro lado, um suporte musical permite realçar certas características formais da poesia, enquanto dá tempo à sua fixação e à sua reprodução. A lírica do séc. XII a XIV surge, pois, com dois aspectos inseparáveis: o literário e o musical.
É sobretudo sobre as produções poéticas e musicais da Baixa Idade Média, mas também do Renascimento, que se move a acção do Ensemble Cantilena Antiqua, fundado por Stefano Albarello em Bolonha (Itália) em 1987 e composto por músicos que se especializaram em realizar simultaneamente repertórios sagrados e profanos.
A recuperação dos repertórios antigos pelos elementos dos Cantilena Antiqua é o resultado de uma investigação cuidada em fontes musicais, na literatura e na história das épocas medieval e renascentista. A recolha musical abrange uma vasta gama de diferentes tradições musicais e a interpretação tem em conta, o mais possível, uma fidelidade à tradição, uma vez que o Ensemble assegura que são preservados os sons e estilos originais do período que abarcam.
Naturalmente que o Ensemble Cantilena Antiqua faz uso de réplicas de instrumentos para aprofundar particularmente o aspecto do desempenho. Desses instrumentos, que variam de acordo com o período abordado, contam-se alaúdes de vários tamanhos, flautas, bombardas, realejos, symphonia, percussões e violas, entre outros. Relativamente às vozes, os intérpretes variam cada tempo, de acordo com a polifonia, dando preferência a vozes masculinas e a contra tenor.
Da riquíssima produção discográfica do Ensemble Cantilena Antiqua, destacamos três registos: “Ondas do Mar” (el canto de amor en el Mediterráneo del siglo XIII) (Symphonia 1998), uma mistura de sons, ritmos e letras que expressam com clareza o mundo musical do século XIII, principalmente da Espanha e da Sicília, mas também da Grécia e da Turquia; “Canticum Canticorum” (il simbolo sacro dell’amore nella tradizione musicale Medioevale dell XII e XIII Secolo) (Symphonia 1995), que tem por base o "Cântico dos Cânticos", que na Idade Média se tornou uma das mais importantes referências do ascetismo espiritual, a chave que abriu as portas para o caminho que conduz a alma a Deus, tornando-a perfeita na união com a mente; e “Aines” (Mistero Provenzale Medioevale dell XV Secolo) (Symphonia 1999), sobre o Mistério de Santa Agnes, cujo martírio, narrado num manuscrito conservado na Biblioteca do Vaticano, se insere numa tradição de teatro popular religioso que se desenvolveu nos meios seculares.



(30) Rex Salomon fecit templum (3:52) “Canticum Canticorum”
(19) Virgines egregie/Veni dilectus meus in hortum/Veni in ortum meum (4:12) “Canticum Canticorum”
(12) Ay ondas (3:47) “Ondas do Mar”
(02) Ai tal domna (5:09) “Ondas do Mar”
(05) Rei Glorios (5:51) “Aines”

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“Uma oração penitencial sefardita e uma cantiga dedicada a Santa Maria, do tempo do rei Afonso X, de Castela. São os sons que encerram o Templo das Heresias”.

(1) Alia Musica - (2) Eleja (7,52) “Puerta de Veluntad: Liturgia y mística en la música judeoespañola”
(2) Malandança (5) Cantiga 323 Ontre todalas vertudes (12,50) “Unha noite na corte do rei Afonso”

12/23/2008

Os melhores discos de 2008

“O Templo das Heresias” apresenta as suas 30 maiores referências discográficas do ano de 2008. Apesar de serem consideradas das tendências menos conhecidas do mundo da música, não deixam, no entanto, de ser, das mais interessantes.

Al Andaluz Project - Deus et Diabolus (Galileo)*
Aleksandra Alexander - Music for Medieval Faires (Bunny Records)
Arriba La Cumbia! (Crammed Discs)
Aruna Sairam – Divine Inspiration (World Village)
Bako Dagnon – Titati (Syllart) *
Beatus – Trobar: Chansons d’amour, de la Vierge à la Dame (Alpha)*
Choeur de Chambre de Namur/ Psallentes/ Les Pastoureaux/ Millenarium – Llibre Vermell (Outhere/Ricercar)
Desert Blues 3/Entre Dunes et Savanes (Network)
Eduardo Paniagua/ Jorge Rozemblum – Klezmer Sefardí (Pneuma)*
Ensemble Belladonna – Melodious Melancholye: The Sweet Sounds of Medieval England (Raumklang)*
Esma Redzepova - Gypsy Carpet (Network)*
Gabi Lunca - Sounds from a Bygone Age, Vol. 5 (Asphalt Tango)
Hector Zazou & Swara – In the House of Mirrors (Crammed Discs)
Hespèrion XXI - Estampies & Danses Royales (Alia Vox)
Hespèrion XXI / Al-Darwish / La Capella Reial de Catalunya / Jordi Savall – Jérusalem (Alia Vox)
Ioculatores (Raumklang)*
Istanbul Oriental Ensemble - Grand Bazaar (Network)*
Jalda Rebling – Juden im Mittelalter (Raumklang)*
Justin Adams & Juldeh Camara - Soul Science (Wayward)*
L' Ensemble Aromates – Rayon de Lune: Musique des Ommeyades (Alpha)*
Les Amazones de Guinée – Wamato (Sterns Music)

Mediterraneo (Som Livre)*
Millenarium – Danza: Danses médiévales (Outhere/Ricercar)
Rokia Traoré – Tchamantché (Universal)
The Garifuna Women´s Project - Umalali (Stonetree Records)
The Rough Guide to Turkish Café (World Music Network)
Theodora Baka – Myrtate: Traditional Songs from Greece (Raumklang)*
Toni Iordache - Sounds from a Bygone Age, Vol. 4 (Asphalt Tango)*
Toumani Diabaté - The Mandé Variations (World Circuit)
Victor Démé - Victor Démé (Chapa Blues)

* Estes discos têm data de edição anterior, mas só em 2008 foram colocados à disposição de “O Templo das Heresias”.

12/09/2008

Hadja Kouyaté / Ensemble Aromates

“Uma canção lírica da Bósnia, um tema político da Córsega, uma história de amor da Bulgária e um canto de trabalho da Arménia. São os sons que abrem hoje as portas do Templo das Heresias”.

(1) Nada Mamula (1) Kad ja … (4,09) “Echoes from an endangered world”
(2) Gjacumina Micaeli (15) Maneta (4,18) “Tra Ochju e Mare”
(3) Ivo Papasov and His Orchestra (3) Istoria … (4,17) “Balkanology”
(4) The Shoghaken Ensemble (13) Khnotsu… (4,53) “Armenia Anthology”

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“Os “griots” são os trovadores da costa ocidental africana, os transmissores da palavra através dos tempos; com eles, os saberes e as crenças transitam de geração em geração, unindo o passado ao presente e sustentando uma unidade de representação, espiritual e divina.
Os “griots” ou “jalis” são hereditariamente músicos, diplomatas e conselheiros políticos e morais. Representam a memória colectiva dos Mandingas, são os “livreiros” de uma única e extensa tradição oral. São também os guardiões de um código moral que faz parte de cada aspecto da vida: do casamento à produção musical, da dança às disputas entre vizinhos, enfim de todo o quotidiano.
Entre outros registos de músicos “griots” de toda a África Ocidental, divulgámos aqui, em 2001, o primeiro álbum de Hadja Kouyaté, da Guiné Conácri, acompanhada por Ali Boulo Santo, do Senegal, editado pela Frikyiwa. Agora chega-nos o segundo registo de Hadja Kouyaté, agora acompanhada pelos “Guinéens”, intitulado “Yilimalo” (2003 Frikyiwa).

(9) Diarabi (5,02)
(8) Silani (4,50)
(5) Bintou (6,50)
(7) Mamassa (4,45)

(Separador)

“Um canto hebraico de Israel, uma fusão da tradição com a modernidade produzida na Sardenha, um tema joikh característico da etnia Saami da Lapónia e uma canção da Karélia escandinava. São os sons que encerram a 1ª parte do Templo das Heresias”.

(1) Ora Sittner & Youval Micenmacher (19) Orkha… (3,58) “Lamidbar: Vers le Désert”
(2) Elena Ledda (6) In S’Ora (3,24) “Amargura”
(3) Mari Boine (1) Cuvges…. (3,58) “Goaskinviellja: Eagle Brother”
(4) Hedningarna (8) Viima (5,00) “Karelia Visa”


2ª Hora

“Os cantos dos trovadores medievais da Provença (França) na reabertura do Templo das Heresias”.

(1) Beatus/ Jean-Paul Rigaud (8) Non es meravelha (Bernard de Ventadour) (4,05) “Trobar: Chansons d’amour, de la vierge à la Dame”
(2) Ensemble Tre Fontane (2) L’ensenhaments e’l prètz e la valors (Arnaud de Mareuil) (4,07) “Le Chant des Troubadours, vol. 2”
(3) Paul Hillier (2) Reis Glorios (9,26) (Guiraut de Borneil) “Proensa”

(Separador)

Os sete séculos da presença árabe em Espanha, de 711 a 1492, permitiram a emergência de uma civilização tolerante, em que três religiões monoteístas (a cristã, a judaica e a muçulmana) e povos de diversas origens vivessem em harmonia.
Na Andalusia desse tempo, as cidades de Córdova, Sevilha e Granada tornaram-se importantes centros culturais, artísticos e religiosos. O nome Andalusia é proveniente da designação árabe “Al-Andalus”, por sua vez originária da visigótica “Landahlauts”, que também derivou de outra palavra, “Vandalusia”, utilizada pelos Vândalos; designavam todas, uma vasta área que abarcava grande parte da Península Ibérica.
A música andalusa é o resultado da fusão das composições trazidas para a Península por músicos do Médio Oriente, do Norte de África importada pelos Berberes e pela música nativa ibérica. A junção das influências mediterrânicas orientais e ocidentais deu origem a uma música que floresceu na Espanha muçulmana, a designada Música Arabo-Andalusa.
Uma das mais importantes figuras da música “Arabo-Andalusa” foi Ziryâb, um antigo escravo do Séc. IX, que se tornou um grande poeta, músico e cantor. Proveniente de Bagdad, Ziryâb chegou a Córdova em 822 e aí introduziu várias modas desconhecidas na Andaluzia, acrescentou uma quinta corda ao alaúde, inventou o plectrum, compôs cerca de dez mil canções e desenvolveu um novo método de ensinar o canto.
Michèle Claude, a líder do Ensemble Aromates, revisitou o repertório de Ziryâb e dos seus sucessores, dando-nos a conhecer no álbum “Jardin de Myrtes: Mélodies andalouses du Moyen-Orient” (2005 Alpha) um oriente barroco e um ocidente oriental, realidades que não podem ser menosprezadas, se quisermos salvar e perpetuar o imenso património humano e cultural que recebemos do passado.
Dois anos depois, Michèle Claude e os Aromates regressam com “Rayon de Lune” (2007 Alpha), um registo que se debruça sobre a música dos Omíadas (711-714). Depois de derrotarem o rei visigodo Rodrigo, os Omíadas desenvolveram na Península Ibérica uma próspera civilização, dominada por matemáticos, astrólogos médicos, filósofos músicos, poetas, arquitectos... Só em Córdova, na biblioteca do Califa dos Omíadas, al-Hakam II (961-976) existiam mais de 400 000 obras, que nos possibilitaram o acesso a um legado riquíssimo. Combinando o idioma musical do Al Andalous com os timbres do organeto, do saltério do cravo e de uma rica selecção de instrumentos de percussão, mais uma vez, os Aromates surpreendem.


“Jardin de Myrtes” (1) Ouverture Nawa Athar (7,03)
“Rayon de Lune” (4) Vent de Grenade (3’59)
(5) Alcool (4’06)
(1) Rayon de Lune (3’12)
(18) Je ne peux aimer que toi (4’07)

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“Uma missa produzida por Sungji Hong e um salmo hebraico. São os sons que encerram o Templo das Heresias”.

(1) Trio Mediaeval - (11) Sanctus (4,06) “Stella Maris”
(2) Steve Reich (2) Parts III & IV (12,27) “Tehillim”

11/15/2008

Victor Démé /Ricercar

1ª Hora

“Um canto griot dos trovadores mandingas, um tema sobre um bravo guerreiro do Império Bamana, uma canção sobre a importância do carisma e uma homenagem a um dos maiores tocadores de kora. É com a música do Mali que abrimos hoje as portas do Templo das Heresias”.

(1) Bako Dagnon (6) Bounteni (4:55) “Titati”
(2) Bassekou Kouyate & Ngoni Ba (5) Mbowdi (5:20) “Segu Blue”
(3) Rokia Traoré (5) Kounandi (5:23) “Tchamantché”
(4) Toumani Diabaté (5) Ismael Drame (5:45) “The Mandé Variations”

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O cantor mandinga Victor Démé, do Burkina Faso, editou este ano (2008) o seu primeiro álbum, após 30 anos de carreira. Démé herdou a música da parte da mãe, uma artista griot muito solicitada para grandes casamentos e baptizados, nos anos 60, em Bobo-Dioulasso. Da parte do pai, Démé recebeu outra herança que foi sendo transmitida de geração em geração na família Démé, a costura, praticada pelos seus tios e tias, bem como pelos seus antepassados, uma linha de costureiros da etnia Marka, dos mandingas da África Ocidental.
Foi na oficina de costura do pai, em Abidjan (Costa do Marfim), que o jovem Démé se refugiou, quando era adolescente. De dia, Victor Démé trabalhava no atelier e à noite começou a frequentar os clubes da capital e a cantar em alguns pequenos grupos. À medida que foi crescendo, Démé granjeou uma reputação nos clubes da Costa do Marfim, nomeadamente no seio da famosa orquestra Super Mandé, liderada pela estrela Abdoulaye Diabaté.
Em 1988 Victor Démé regressou ao Burkina Faso, quando o país beneficiava do ímpeto do revolucionário vermelho Thomas Sankara, que, antes de ser assassinado, trabalhou para a valorização da criação artística. Démé tinha, então, 26 anos e a sua paixão musical atingia o auge. Ganha vários prémios musicais (Concurso do Centro Cultural francês, em 1989 e o primeiro prémio da Semana Nacional da Cultura, em 1990, entre outros) e é recrutado pelas grandes orquestras, inclusivamente pela l’Echo de l’Africa e, sobretudo, pela Suprême Comenba, que dominava as noites em Ouagadougou.
Quando Victor Démé se tornava um cantor popular no Burkina Faso, graves partidas do destino o obrigaram a afastar-se do mundo da música, por vários anos. Quando regressou, após tanto tempo, Démé, para ganhar a vida, muitas vezes teve que cumprir as exigências dos donos dos clubes e ser obrigado a interpretar clássicos de Salif Keita ou de Mory Kanté. No entanto, paralelamente, Victor continua a compor as suas próprias composições.
Em 2005, Victor Démé beneficia da ligação a Camille Louvel, o gerente de Ouagajungle, um bar associativo de Ouagadougou, onde se organizavam inúmeros concertos. Em 2007, com a ajuda do jornalista David Commeillas e de activistas do Soundicate, fundam a Chapa Blues Records para promover a música de Victor. É, então, que o cantor começa a trabalhar no seu primeiro álbum, no pequeno estúdio que a equipa do Ouagajungle construiu em Ouagadougou. O estúdio da associação consiste simplesmente em duas divisões separadas por um pára-brisas de um camião, equipado com uma consola de 16 pistas, mas este é o ponto de partida para muitos artistas talentosos.
Finalmente, aos 46 anos de idade, Démé elabora um mosaico singular de melodias folk-blues, pequenos romances mandingas intimistas, com influências da salsa e do flamenco. Nos textos, em linguagem dioula, Démé apela à solidariedade nacional ("Peuple Burkinabé”), advoga à tolerância em relação ao próximo (“Djôn'maya") e presta homenagem a todas as mulheres do Burkina Faso ("Burkina Mousso” e “Sabu”). O disco encerra com dois temas da música tradicional mandinga (“Tama Ngnogon” e “Dala Môgôya”), dando a conhecer a extraordinária riqueza da música da África Ocidental.



(03) Toungan (3:27)
(02) Djôn'maya (4:04)
(09) Dankan (3:23)
(12) Djabila (6:16)

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“A Revolução cubana deu origem no plano musical a bloqueios aos intercâmbios com o exterior, gerando divergências e rivalidades. Apesar do isolamento a que foi votada, a pequena ilha não parou de progredir musicalmente. Está bem viva e recomenda-se.”

(1) Omara Portuondo (9) Veinte años (4,44) “Omara Portuondo”
(2) Ibrahim Ferrer (II) Fuiste cruel (4,27) “Buenos Hermanos”
(3) Rubén González (1) La Engañadora (2,32) “Introducing …”
(4) Buena Vista Social Club (1) Chan Chan (4,18) “Buena Vista Social Club”
(5) Orlando Cachaíto Lopez (3) Mis dos pequeñas (4,06) “Cachaito”


2ª Hora

“A música da Grécia Antiga abre hoje as portas da 2.ª hora do Templo das Heresias”.

(1) Christodoulos Halaris (3) Second Delphic hymn (6,14) “Music of Ancient Greece”
(2) Atrium Musicae de Madrid (3) 1er Hymne Delphique (4,50) “Musique de la Grèce Antique”
(3) Petros Tabouris (1) Athenaeus, Paian (3,58) ) “Fragments of Ancient Greek Music”
(4) Melpomen (14) Agallís (2,31) Musique de la Grèce Antique”
(5) Petros Tabouris (16) Fragment … (0,45) “Music f Greek Antiquity”
(6) Ensemble Kérylos (10) Seikilos …(0,26 – 2,43) (2,17) “Musiques de l’Antiquité Grecque”

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Em 1980, Jérôme Lejeune formou a Ricercar, uma editora belga que se afirmou, desde logo, como um dos pilares da redescoberta da música antiga e barroca. Muitos músicos aderiram, então, ao movimento. Entre outras memórias, a Ricercar teve o privilégio de acolher os dois ensembles vocais de Philippe Herreweghe, the Collegium Vocale e a Chapelle Royale, cujo primeiro registo foi dedicado à música de Palestrina.
À medida que o tempo foi passando, a Ricercar foi-se afirmando cada vez mais no domínio da música antiga, editando cerca de 250 gravações, muitas delas verdadeiras obras-primas da história da música. Explorando temas como a música barroca alemã, as obras para órgão de Bach e dos seus antecessores alemães, a música polifónica franco-flamenga, as fontes de inspiração de Monteverdi, a descoberta dos instrumentos antigos, a monodia secular medieval, entre outros, rapidamente a Ricercar se tornou numa etiqueta de referência.
O interesse dedicado ao vasto património musical da Bélgica e dos Países Baixos foi, também, um elemento importante na política editorial da Ricercar, promovendo um repertório de qualidade muito elevada. Compositores nascidos nessas zonas e cuja actividade foi proeminente no estrangeiro (Lassus, Du Mont, Grétry, Franck, só para citar os mais conhecidos) foram justamente recordados pela Ricercar.
A personalidade espantosa de Jérôme Lejeune (diplomado em musicologia pela Universidade de Liége, professor de História da Música no Conservatório Real de Liège e fundador e director artístico da Ricercar, há vinte e cinco anos) controla todas as produções da editora, tanto a nível científico, como artístico e técnico. Com La Fenice e Jean Tubéry, Millenarium, La Pastorella e Frédéric de Roos, the Namur Chamber Choir, Les Agrémens e Guy Van Waas, Continens Paradisi, Bernard Foccroulle, Sophie Karthäuser e muitos outros, a etiqueta do futuro é mais do que nunca servida por projectos discográficos emocionantes, muitos deles amplamente aclamados pela imprensa internacional.
Hoje vamos divulgar um dos projectos mais importantes da Ricercar, os Millenarium, grupo belga dirigido por Christophe Deslignes que se move nas áreas da música antiga religiosa, cortesã e popular do baixo Mediterrâneo. Temos disponíveis os seguintes álbuns: “Chansons de Troubadours et Danses de Jongleurs” (2001), uma homenagem aos trovadores Thibaut de Champagne, Bernard de Ventadorn, Gaucelm Faidit, Beranguier de Palol e anónimos, que celebram a alegria e o divertimento do amor cortês; “Douce Amie – Chansons de Trouvères” (2002), que explora o repertório dedicado às mulheres, pelos trovadores medievais; “Carmina Burana: Tempus Transit” (2004), que se debruça sobre o manuscrito da abadia de Beuren, com textos de várias origens e estilos, descoberto no século XIX; “Carmina Burana: Officium Lusorum” (2006), uma reconstrução de uma Missa dos Doidos, tal como teria sido interpretada nas grandes catedrais francesas, no século XIII, entre o Natal e o Ano Novo, contando com as colaborações contrastantes do Choeur de Chambre de Namur e dos Psallentes, que interpretam a Missa em canto Gregoriano; “Llibre Vermell” (2007), baseado no famoso manuscrito do século XIV, da Abadia de Montserrat (Catalunha), em que os Millenarium contam com a participação dos peregrinos (Choeur de Chambre de Namur), dos monges (Psallentes) e dos coristas da abadia (Les Pastoureaux); e “Danza Danses médiévales” (2008), que se debruça sobre as raras descrições da música instrumental medieval, composta antes da emergência da polifonia.



(08) La nova estampida real (4:41) “Chansons de Troubadours et Danses de Jongleurs”
(02) A que as cousas coitadas (3:02) “Danza Danses médiévales”
(01) Au renouvel du tens (1:58) “Douce Amie – Chansons de Trouvères”
(02) Cuncti simus concanentes (4:41) “Llibre Vermell” (2007)
(01) Estampida de Rocamadour (instrumental) (3:44) “Officium Lusorum”
(14) Caterine collaudamus (3:45) “Carmina Burana: Tempus Transit” (2004)

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”Abertura da segunda parte com as canções dos judeus sefarditas e ashkenaz, na época medieval.”

(1) The Renaissance Players Winsome Evans (7) Si la mar era de leche (6:40) “The Sephardic Experience, Vol. 4: Eggplants”
(2) Jalda Rebling (13) Küng Herre, Hochgelopter Got (4:37) “Juden im Mittelalter – Aus Sepharad und Ashkenas”
(3) Naguila (8) Déror Yiqra (5:41) “Hallel”
(4) Judith R. Cohen (2) Dror Yiqra (7:51) “Canciones de Sefarad”

10/28/2008

Theodora Baka / Ensemble Belladonna

1ª Hora

“Um canto romani da Albânia sobre o desespero pela perda de uma filha, um tema sobre a felicidade dos ciganos viajantes da Macedónia e um blues da Roménia pleno de sensibilidade. São os sons que abrem hoje as portas do Templo das Heresias”.

(1) Rromano Dives (1) E Semesqiri Gili (5:42) “Chaj Zibede: Musique Rromani d’Albanie”
(2) Esma Redzepova & Ensemble Teodosievski (4) Dzelem, Dzelem (4:47) “Gypsy Queens”
(3) Dona Dumitru Siminica (10) Mosule Te-As Intreba (7:24) “Sounds from a Bygone Age, vol. 3”
(T.T. 17:53)

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As terras gregas foram, ao longo da história, um ponto de passagem e de fixação para os mais diversos povos e ainda hoje a sua cultura reveste um invulgar diálogo entre as tradições latinas e as tradições semitas do leste.
Naturalmente que a cultura tradicional reflecte todo este secular intercâmbio entre as mais diversas etnias, embora permaneçam formas expressivas especificas da alma grega.
Em primeiro lugar, importa ter bem presente que, mais do que em qualquer lugar, na Grécia é particularmente difícil estabelecer uma linha da diferenciação entre a música popular e tradicional e outras expressões não tradicionais (sacra, por exemplo…).
Com efeito, sempre se verificou uma inteira relação entre o popular e o erudito, sendo a chamada “skolia” (canção de convívio, funcionalmente usada durante os festins e banquetes), um exemplo bem significativo dessa “simbiose” expressiva.
Outros géneros de canções tradicionais, interpretadas durante as cerimónias de casamentos, eram as “odes” e os “hinos”, aquando da entrada dos recém-casados nos seus quartos nupciais. Por outro lado, durante os funerais, os “linos” e “lamentos” davam ênfase à dor: lamentos corais e respostas em monodias que davam depois lugar a danças rituais de celebração da vida.
Uma das formas mais expressivas da música tradicional grega é a “dimotiki” ou “laika”, preferida pelo compositor Mikis Theodorakis na elaboração de obras de denúncia e de luta contra o regime ditatorial grego.
Mas, de certo modo em oposição à “dimotiki” ou “laika”, surgiu, em finais do século XIX, nas zonas pobres de Atenas, a “rembetika”, uma espécie de fado ou blues característico dos marginais, desempregados e drogados (com haxixe).
A música tradicional grega das ilhas difere de zona para zona. Assim, a música das Ilhas Jónicas, a ocidente do Épiro, é bastante diferente, por exemplo, da de Creta. Do mesmo modo, a música instrumental de Rhodes é claramente diferente das relativamente próximas Ilhas Sporades. Entre os instrumentos característicos pode encontrar-se um tipo pequeno e antigo de gaita-de-foles, designada tamboura, assim como o violino, chamado lyra, que é o instrumento típico de Creta.
Na Grécia continental, o instrumento predominante é actualmente, o clarinete, designado de Klarino, que substitui quase por completo a gaita-de-foles, gaida, e um oboé místico designado karamouza ou pipiza.
Theodora Baka, natural de Larissa (Grécia) desde criança que se foi familiarizando com as canções tradicionais da sua terra natal. Em 2007, no auge das suas capacidades vocais, editou para a etiqueta alemã Raumklang, o extraordinário registo “Myrtate: Traditional Songs from Greece”.
Fazendo-se acompanhar por uma formação pouco usual, constituída pelo oud (Thymios Atzakas), lyra (Pantelis Pavlidis) e zarb (Bijan Chemirani), Theodora Baka celebra, sobretudo, as lendas e os mitos ancestrais helénicos, mas debruça-se, também, sobre outras canções tradicionais gregas, como lamentos pela perda da liberdade por uma jovem noiva ou singelas canções de amor.

(11) Sto pa kai sto xanaleo (4:03)
(06) Mia Paraskevi (3:19)
(01) San to feggari tis anixis (6:09)
(02) Lemonia (The Lemon Tree) (5:53)
(T.T. 19:24)

(separador)

“Um tema que recria a atmosfera nocturna do grande bazar de Istanbul e um Ghazal de Rumi, o supremo poeta lírico persa do século XIII. São os sons que encerram da 1ª parte do Templo das Heresias”.

(1) Istanbul Oriental Ensemble (6) Gece Yarisinda Pazar (8:16) “Grand Bazaar”
(2) Parissa & Ensemble Dastan I (3) Daramad, Saz-o Avaz (8:02) “Gol–E Behesht”
(T.T. 16:18)

2ª Hora

“Três temas do famoso Llibre Vermell da abadia de Montserrat (Catalunha - séc. XIV) abrem as portas da 2.ª hora do Templo das Heresias”.

(1) Sarband (Bulgária) (13) Cuncti simus concanentes (5:49) “Llibre Vermell”
(2) Micrologus (Itália) (5) Los set gotxs (6:49) “Llibre Vermell de Montserrat”
(3) Capella de Ministrers (Espanha) (9) Mariam Matrem (6:27)) “Llibre Vermell”
(T.T. 19:05)

(separador)

O Ensemble Belladonna é um trio constituído por Miriam Andersén (voz e harpa), Rebecca Bain (voz e rabeca) e Susanne Ansorg (rabeca), oriundas da Suécia, Canadá e Alemanha, respectivamente. O grupo especializou-se em interpretar músicas da época medieval e dos inícios do Renascimento, à semelhança do que fazem os Anonymous 4, com quem habitualmente é comparado. Os membros do Ensemble Belladonna encontraram-se enquanto estudavam na Schola Cantorum Basiliensis, em Basileia (Suíça), permanecendo juntas desde 1997. Em 2005, o Ensemble Belladonna editou, para a etiqueta alemã Raumklang, o seu primeiro registo, intitulado “Melodious Melancholye - The Sweet Sounds of Medieval England”, uma colecção de canções de embalar, temas moralistas, celebrações à natureza, poemas inspirados no amor cortês da França medieval, contos sobre amores perdidos ou sobre os transitórios prazeres mundanos, entre outros. Temas instrumentais convincentes e habilidosos, textos riquíssimos de compositores anónimos ou de poetas medievais como Charles d’Orléans, Walter Frye, Robertus de Anglia e John Bedyngham, que datam desde os inícios do século XIII às primeiras décadas do XV, desfilam melancólica e melodiosamente e envolvem-nos hipnoticamente.
"Melodiosas" e “melancólicas” são os adjectivos apropriados para definir as vozes das intérpretes do Ensemble Belladonna neste registo, tanto mais que possuem timbres nostálgicos, suaves, agradáveis e bonitos e o repertório que interpretam são os adocicados sons da Inglaterra medieval, que reflectem um estilo de poesia mais directo e, muitas vezes, mais íntimo, que a altamente ornamentada paixão das canções italianas, ou a música cuidadosamente construída pelos idealistas franceses.

(3) Miri it is while sumer ilast (estampie, 1225) (3,03)
(6) Dou way Robin / Sancta mater gracie (motet, séc. XIII) (3,51)
(4) Ar ne kuth ich sorghe non (c. 1270) (5,04)
(1) Worldes blis ne last no throwe (c. 1265) (5,26)
(10) Alas, departynge is ground of woo (song, Séc. XV) (1,54)
(T.T. 19:18)

(separador)

“Um hino religioso bizantino à Virgem Theotokos, um tema baseado num canto maronita e um salmo para o terceiro milénio. São os sons que encerram hoje o Templo das Heresias”.

(1) Sophia Papazoglou (13) At the Beauty (8:22) “World Festival of Sacred Music”
(2) Vox (2) Kreuzigung/ Crucifixion (5:45) “X – Chants from the Christian Arab Tradition”
(3) Marie Keyrouz (5) Hymnes (5:28) “Psaumes pour le 3ème Millénaire”
(T.T. 19:35)